quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Bolsonaro e eu

    Antes de mais nada, quero esclarecer: eu odeio o presidente Jair Messias Bolsonaro.
    Por que?
    Primeiramente por me sentir ameaçado por ele. Sou formado em história, budista e nerd, logo sou um alvo preferencial do discurso bolsonarista, o que faz meu ódio ser praticamente uma reação instintiva.
    Em segundo lugar, discordo de praticamente tudo que ele defende, e costumo ter antipatia por algumas pessoas que o defendem.
    Por ultimo, há um despeito meu, por não ter sido capaz de convencer pessoas próximas a tentarem outra opção.
    Dito isto, posso partir para o tema principal: sobre a relação que percebi haver entro o "Mito" e eu, ou porque eu tento parar de preocupar-me e passar a amar as ameças (era para ser uma referência à Kubrick).
    Começo informando que não tenho nenhuma relação direta com o Bolsonaro. No máximo, o vi duas vezes na rua, e votei uma vez no filho dele (pode me xingar). Quando falo de "relação" estou me referindo a como o atual presidente impacta minha vida, ou mais especificamente, minha forma de ver a vida.
    Além da constante preocupação de que alguma política pública possa prejudicar seriamente minha vida, não sou exatamente afetado pelas ações dele. Seria mais um impacto emocional. Tornou-se bastante incômodo ler sobre política, pois notícias relacionadas a ele costumam trazer-me sentimentos de raiva, apreensão, desesperança e medo, principalmente medo.
    No entanto, não adianta ficar desesperado. Diante do inevitável só resta aceitar a realidade e tentar aprender com ela. Vamos aos fatos: Jair Bolsonaro é o presidente do Brasil. Dos candidatos apresentados ele foi o que conseguiu ter o maior apoio da população. Aceitemos.
    Não estou dizendo que era o melhor candidato, nem que a maior parte da população concorde com ele, mas que ele venceu todos os outros no campo eleitoral.
    Logo a primeira pergunta seria; como isso foi acontecer?
Algumas respostas me surgem:
  • Decepção com o PT
  • Decepção com a política
  • Decepção com democracia
  • Decepção com a esquerda
  • Fake news
  • Reacionarismo
  • Decepção com o Brasil
    Então fico com a impressão de que o principal motivador foi algum tipo de decepção. Muitos alegaram votar nele por considerá-lo contrário ao establishment. Fica a primeira dica: não seja idiota. Ele está na carreira política a mais de vinte anos, botou os filhos na política, teve esposa política, Bolsonaro faz parte da estrutura política tanto quanto qualquer outro parlamentar. 
    Veja bem, simplesmente votar nele não faz de ninguém um idiota. O problema é votar nele por um motivo que não faz sentido: ser contra os políticos de carreira, mas votar em um. 
    Então por que não viram isso? Na minha opinião; porque não queriam ver. Há uma recorrente insatisfação com o corpo político, e o simples fato dele ser um párea dentro deste corpo, foi suficiente para que esquecessem que ele fazia parte de tudo isso, e que contribuía para sua manutenção. Fica então a lição, não deixar sua raiva te cegar. É como as pessoas que depositam confiança no Roberto Jefferson por ele ter denunciado um esquema de corrupção, sendo que ele fazia parte do esquema.
    Fica também outra lição: cuidado com herois! Principalmente se um dos fundamentos de seu heroísmo é ser um pária. Há motivos nobres para ser um párea, mas a maioria das pessoas não é nobre. Geralmente se é párea por não se saber jogar. Então, se alguém pede sua confiança por ser um perseguido, certifique-se se não há motivos razoáveis para tal perseguição.
    Confesso que já caí muitas vezes nesta armadilha: tomar partidos de pessoas perseguidas sem analisar em que ponto elas não contribuíram para o serem. Ou pior ainda, ver-se como um perseguido.
    Uma realidade dura de ser entendida é que outros não tem nenhuma obrigação objetiva para conosco e a maioria só vai de importar conosco se fizermos por onde. Claro que há pessoas altruístas, e que é razoável reconhecer-se os direitos humanos, além de que a cortesia deveria ser a norma, mas cada um tem seus problemas. Nunca se sabe que dores alguém pode estar sentido, quais sua angustias e medos. Dessa forma, tomar os problemas alheios para si próprio, não costuma ser uma ideia construtiva.